-- Jim Collins
sexta-feira, 18 de outubro de 2024
terça-feira, 17 de novembro de 2009
13
Rafael não sabia exatamente o que fazer. Mandar que uma faca deixasse de ser uma faca soava tão lógico quanto pedir ao anão à sua frente que parasse de se encolher e confessasse ser um gigante complexado.
— Vamos, ordene! — Oldor demonstrava impaciência. — Se ela o trouxe até aqui, é provável que você tenha propriedade para fazer com que se revele. Apenas ordene, e faça isso como se fosse o dono dela.
O rapaz girou a adaga na mão, perguntando-se o quanto ela poderia ser diferente caso possuísse mesmo outra forma. Talvez fosse maior, ou a lâmina mais consistente. Difícil saber ao certo, assim como qualquer coisa naquele lugar. Rafael alinhou o tronco até então encurvado pela falta de apoio no banco e inclinou-se alguns graus para trás, protegendo-se do que pudesse vir a acontecer. Enfim, disse com a voz hesitante, soando involuntariamente diferente do normal, como quem reza em voz alta:
— Adaga Ceres, eu ordeno que você mostre sua verdadeira forma...
Um silêncio cheio de expectativa preencheu o instante seguinte. Rafael observava atentamente o objeto em sua mão, mas logo ouviu Oldor praguejar, frustrado. Nada acontecera e ele se sentiu estúpido e um pouco constrangido. O anão apoiou os cotovelos sobre a mesa e abaixou a cabeça até prendê-la entre os braços, pensativo, mexendo nos cabelos desgrenhados sem nenhuma delicadeza.
— Não sei mais o que te dizer, garoto! — Oldor encarava Rafael com o rosto repuxado entre as mãos. — Apesar de ter forjado essa adaga, nem eu posso saber tudo a respeito dela. Não tenho dúvidas de que foi ela a te trazer aqui, mas não faço idéia do porquê. Seu avô... ele deveria estar aqui, não você. E há o orbe de Lúmen também — continuou gravemente, como se venerasse a esfera reluzente no centro da mesa. — Este é de longe o artefato mais importante deste lado do continente. Quando ele estava aqui, nossa terra era uma; sem ele, tornou-se o que é hoje. Quem sabe o que ela pode vir a ser com ele aqui outra vez?
Havia um resto de chá na caneca do anão e ele o bebeu, recompondo-se depois.
— Posso voltar para casa? — Rafael fez a pergunta que estivera em sua mente desde o início.
— Sinto muito, mas isso depende de Ceres — Oldor meneava a cabeça. — A adaga possui vontade própria, e já que não obedece às suas ordens, não há muito que fazer a respeito. — Rafael sentiu o desespero tomar conta dele. — Saiba que é uma região bastante afastada esta em que nos encontramos. Acho melhor você ir a Lúmen, procurar por respostas. Mas já é tarde, vamos encontrar um canto onde você possa descansar. Você parte amanhã cedo.
— Vamos, ordene! — Oldor demonstrava impaciência. — Se ela o trouxe até aqui, é provável que você tenha propriedade para fazer com que se revele. Apenas ordene, e faça isso como se fosse o dono dela.
O rapaz girou a adaga na mão, perguntando-se o quanto ela poderia ser diferente caso possuísse mesmo outra forma. Talvez fosse maior, ou a lâmina mais consistente. Difícil saber ao certo, assim como qualquer coisa naquele lugar. Rafael alinhou o tronco até então encurvado pela falta de apoio no banco e inclinou-se alguns graus para trás, protegendo-se do que pudesse vir a acontecer. Enfim, disse com a voz hesitante, soando involuntariamente diferente do normal, como quem reza em voz alta:
— Adaga Ceres, eu ordeno que você mostre sua verdadeira forma...
Um silêncio cheio de expectativa preencheu o instante seguinte. Rafael observava atentamente o objeto em sua mão, mas logo ouviu Oldor praguejar, frustrado. Nada acontecera e ele se sentiu estúpido e um pouco constrangido. O anão apoiou os cotovelos sobre a mesa e abaixou a cabeça até prendê-la entre os braços, pensativo, mexendo nos cabelos desgrenhados sem nenhuma delicadeza.
— Não sei mais o que te dizer, garoto! — Oldor encarava Rafael com o rosto repuxado entre as mãos. — Apesar de ter forjado essa adaga, nem eu posso saber tudo a respeito dela. Não tenho dúvidas de que foi ela a te trazer aqui, mas não faço idéia do porquê. Seu avô... ele deveria estar aqui, não você. E há o orbe de Lúmen também — continuou gravemente, como se venerasse a esfera reluzente no centro da mesa. — Este é de longe o artefato mais importante deste lado do continente. Quando ele estava aqui, nossa terra era uma; sem ele, tornou-se o que é hoje. Quem sabe o que ela pode vir a ser com ele aqui outra vez?
Havia um resto de chá na caneca do anão e ele o bebeu, recompondo-se depois.
— Posso voltar para casa? — Rafael fez a pergunta que estivera em sua mente desde o início.
— Sinto muito, mas isso depende de Ceres — Oldor meneava a cabeça. — A adaga possui vontade própria, e já que não obedece às suas ordens, não há muito que fazer a respeito. — Rafael sentiu o desespero tomar conta dele. — Saiba que é uma região bastante afastada esta em que nos encontramos. Acho melhor você ir a Lúmen, procurar por respostas. Mas já é tarde, vamos encontrar um canto onde você possa descansar. Você parte amanhã cedo.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
12
— Seu chá vai esfriar — Oldor pôs fim ao silêncio que tomava conta da sacristia, mais escura agora que o fogo junto à parede se apagara de vez. Rafael estava absorto, o turbilhão em sua mente a ponto de enlouquecê-lo.
— Me fala que lugar é esse, de uma vez por todas! — sua voz carregava certo tom de súplica.
— Já lhe disse: Tenébria. Estamos em algum lugar do seu mundo que você não consegue ver. Da mesma forma, seu mundo está aqui em toda parte e ninguém pode chegar até ele. Mas nem sempre foi assim, ou ao menos as histórias dizem que não. As correntezas abriam passagens de um lado a outro durante os grandes temporais e postos de parada como este acolhiam quem atravessasse a fronteira.
À menção disso, Rafael se lembrou da tempestade que se abatera sobre São Paulo na noite anterior. Tinha que admitir que as palavras de Oldor mostravam cada vez mais coerência. O anão mudou o foco da conversa repentinamente:
— Há algo que precisamos descobrir. Quero que você segure a adaga — Rafael mal se lembrava da presença do objeto sobre a mesa. Ergueu-o à altura dos olhos e reparou em seu cabo dourado, reluzindo com a luz avermelhada do orbe, e na lâmina enegrecida e translúcida que de modo algum se assemelhava a qualquer metal que ele já houvesse visto. Uma espiral irregular de fumaça se movia lentamente ao redor da lâmina e se dispersou quando Rafael agitou a adaga para os lados, refazendo-se assim que ele parou. Quando ameaçou tocar a lâmina, foi advertido por Oldor:
— Saiba que isso pode facilmente arrancar seu dedo... — Rafael pensava se lembrar da dor causada por aquela arma rasgando-lhe o peito e achou prudente não arriscar. — Posso garantir, pois eu mesmo a forjei e entreguei nas mãos de Hermes — o anão prosseguia, orgulhoso e nostálgico, ao tempo em que Rafael já não se surpreendia ao ouvir o outro falar do avô — Seu nome é Ceres e há quem trocaria a alma por ela. Não, a razão não vem ao caso... — completou, impedindo Rafael de perguntar. — Agora ordene que Ceres assuma sua verdadeira forma, neto de Hermes, e vejamos se ela tem algo a nos dizer.
— Me fala que lugar é esse, de uma vez por todas! — sua voz carregava certo tom de súplica.
— Já lhe disse: Tenébria. Estamos em algum lugar do seu mundo que você não consegue ver. Da mesma forma, seu mundo está aqui em toda parte e ninguém pode chegar até ele. Mas nem sempre foi assim, ou ao menos as histórias dizem que não. As correntezas abriam passagens de um lado a outro durante os grandes temporais e postos de parada como este acolhiam quem atravessasse a fronteira.
À menção disso, Rafael se lembrou da tempestade que se abatera sobre São Paulo na noite anterior. Tinha que admitir que as palavras de Oldor mostravam cada vez mais coerência. O anão mudou o foco da conversa repentinamente:
— Há algo que precisamos descobrir. Quero que você segure a adaga — Rafael mal se lembrava da presença do objeto sobre a mesa. Ergueu-o à altura dos olhos e reparou em seu cabo dourado, reluzindo com a luz avermelhada do orbe, e na lâmina enegrecida e translúcida que de modo algum se assemelhava a qualquer metal que ele já houvesse visto. Uma espiral irregular de fumaça se movia lentamente ao redor da lâmina e se dispersou quando Rafael agitou a adaga para os lados, refazendo-se assim que ele parou. Quando ameaçou tocar a lâmina, foi advertido por Oldor:
— Saiba que isso pode facilmente arrancar seu dedo... — Rafael pensava se lembrar da dor causada por aquela arma rasgando-lhe o peito e achou prudente não arriscar. — Posso garantir, pois eu mesmo a forjei e entreguei nas mãos de Hermes — o anão prosseguia, orgulhoso e nostálgico, ao tempo em que Rafael já não se surpreendia ao ouvir o outro falar do avô — Seu nome é Ceres e há quem trocaria a alma por ela. Não, a razão não vem ao caso... — completou, impedindo Rafael de perguntar. — Agora ordene que Ceres assuma sua verdadeira forma, neto de Hermes, e vejamos se ela tem algo a nos dizer.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
11
Rafael estava atordoado. Parecia-lhe cada vez mais plausível a hipótese de estar tendo um sonho lúcido. Analisando os fatos desde que acordara no chão da capela, percebia o quanto os acontecimentos recentes eram absurdos. Inclusive o fato de ele ter se permitido fazer parte daquilo. Não pôde evitar uma espiadela no teto baixo da sacristia para se certificar de que um elefante verde-musgo não estava voando em círculos sobre sua cabeça... O mais inquietante era que, se houvesse começado a sonhar quando despertara naquele lugar, o que afinal teria se passado na oficina do avô? Talvez estivesse mesmo morto e aquele fosse o purgatório de que o padre falara certa vez... Logo o bater do cachimbo emborcado de Oldor sobre a mesa o trouxe de volta de seus pensamentos.
— Seu avô nunca mencionou Tenébria, não é mesmo? — o anão suspirou e retirou as folhas de erva-de-bugre das canecas. Bebeu um gole do chá, apreciando tanto quanto alguém que não conhece açúcar poderia. As linhas em seu rosto e um brilho no olhar denunciavam a nostalgia que se apoderava dele. — Hermes é uma lenda, uma das maiores. O grande campeão do rei.
— Pára com isso! — Rafael pretendeu um tom de deboche que no fim transpareceu certa irritação. — Você não conhece meu avô. Ele é só um carpinteiro metido a Gepeto.
— É mesmo? E por acaso o carpinteiro Hermes não teria uma cicatriz no lado esquerdo do rosto?
Rafael se mexeu no banco, irrequieto e sem ter como retrucar. Lembrava-se de por diversas vezes ter perguntado ao avô como ele conseguira a cicatriz entre o olho e a narina esquerda. Não se lembrava no entanto de em alguma delas ter recebido qualquer resposta. O rapaz travava uma luta para permanecer calmo agora que ficava mais difícil negar que aquele homem de fato sabia quem era seu avô. Viu Oldor sorrir, satisfeito.
— Hermes, seu avô, foi o capitão da guarda durante o reinado do falecido Augusto IV de Lúmen. O predileto, tanto do rei quanto da princesa — o anão mantinha os olhos no cachimbo que girava entre os dedos enquanto prosseguia, calculando cada palavra como se o assunto fosse um tabu: — Aparentemente ele nunca falou a respeito do passado, o que é bastante compreensível. Deve ter pensado em proteger a família que construiu no outro mundo. Mas, ouça-me, ele não pode ter se esquecido de que atravessou a fronteira dos mundos cumprindo com seu dever! — Oldor assumia um aspecto que beirava o assustador. — No fim da guerra, quando a derrota da coroa para os rebeldes vermelhos era iminente, Hermes foi escolhido para se exilar na Terra e salvar o tesouro mais precioso do povo de Lúmen. E se você tem dúvidas, filho, por que não tenta me dizer como o orbe estava em suas mãos quando o encontrei na capela?
Rafael concluiu que, se houvesse alguma chance daquilo ser um sonho, estava cada vez mais difícil prever quando ele poderia ter começado.
— Seu avô nunca mencionou Tenébria, não é mesmo? — o anão suspirou e retirou as folhas de erva-de-bugre das canecas. Bebeu um gole do chá, apreciando tanto quanto alguém que não conhece açúcar poderia. As linhas em seu rosto e um brilho no olhar denunciavam a nostalgia que se apoderava dele. — Hermes é uma lenda, uma das maiores. O grande campeão do rei.
— Pára com isso! — Rafael pretendeu um tom de deboche que no fim transpareceu certa irritação. — Você não conhece meu avô. Ele é só um carpinteiro metido a Gepeto.
— É mesmo? E por acaso o carpinteiro Hermes não teria uma cicatriz no lado esquerdo do rosto?
Rafael se mexeu no banco, irrequieto e sem ter como retrucar. Lembrava-se de por diversas vezes ter perguntado ao avô como ele conseguira a cicatriz entre o olho e a narina esquerda. Não se lembrava no entanto de em alguma delas ter recebido qualquer resposta. O rapaz travava uma luta para permanecer calmo agora que ficava mais difícil negar que aquele homem de fato sabia quem era seu avô. Viu Oldor sorrir, satisfeito.
— Hermes, seu avô, foi o capitão da guarda durante o reinado do falecido Augusto IV de Lúmen. O predileto, tanto do rei quanto da princesa — o anão mantinha os olhos no cachimbo que girava entre os dedos enquanto prosseguia, calculando cada palavra como se o assunto fosse um tabu: — Aparentemente ele nunca falou a respeito do passado, o que é bastante compreensível. Deve ter pensado em proteger a família que construiu no outro mundo. Mas, ouça-me, ele não pode ter se esquecido de que atravessou a fronteira dos mundos cumprindo com seu dever! — Oldor assumia um aspecto que beirava o assustador. — No fim da guerra, quando a derrota da coroa para os rebeldes vermelhos era iminente, Hermes foi escolhido para se exilar na Terra e salvar o tesouro mais precioso do povo de Lúmen. E se você tem dúvidas, filho, por que não tenta me dizer como o orbe estava em suas mãos quando o encontrei na capela?
Rafael concluiu que, se houvesse alguma chance daquilo ser um sonho, estava cada vez mais difícil prever quando ele poderia ter começado.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
10
— Continente? — Rafael ostentava um quê de deboche e indignação ao repetir o que o outro havia dito com indiscutível naturalidade.
Oldor demonstrou indiferença à provocação do rapaz. Levantou-se de seu banco para tirar a água borbulhante do fogo, o que fez após apanhar duas canecas de louça aparentemente muito bem conservadas em um armário e tê-las posto sobre a mesa. Em seguida, encheu-as com a água e adicionou uma folha pequena de erva-de-bugre a cada uma.
— Este lugar onde estamos agora já foi um posto de parada um dia. O último antes da fronteira — disse enquanto voltava a se sentar com uma careta de dor, seus músculos e ossos envelhecidos cobrando o preço por cada movimento mais brusco. — Em algum lugar ao norte daqui havia um caminho para o país de onde você veio e um posto, semelhante a esse, já do seu lado do mundo. Mas isso foi há muito tempo... Se é que foi mesmo.
— Do que você está falando?
— Qual é seu nome de família? — Oldor pareceu não ter ouvido a pergunta, compenetrado de súbito em algum pensamento.
— de Almeida Carvalho — Rafael respondeu, desconcertado.
— Carvalho... — o anão se interessou. Soltou uma longa baforada de fumaça e tirou o cachimbo da boca.
— É, um sobrenome comum.
— Diga-me — Oldor se encurvou na direção de Rafael, seu rosto se iluminando cadavericamente como o de um contador de histórias de terror ao redor de uma fogueira com a proximidade da luz da esfera —, como seu pai se chama? E seu avô? Bisavô?
— Meu pai se chama André, o pai dele, Hermes, o pai da minha mãe--
— Hermes! — o anão ergueu um pouco a voz, alarmando Rafael com a mudança repentina. Então se pôs a rir até que uma tosse seca o fez parar. Rafael se perguntava o que o nome de seu avô poderia significar para um alienado feito aquele.
— Agora começa a fazer sentido! — Oldor fitava Rafael com um misto de admiração e pena. O tempo não poupa ninguém, e coube ao neto de Hermes o fardo de devolver o orbe a Tenébria.
Oldor demonstrou indiferença à provocação do rapaz. Levantou-se de seu banco para tirar a água borbulhante do fogo, o que fez após apanhar duas canecas de louça aparentemente muito bem conservadas em um armário e tê-las posto sobre a mesa. Em seguida, encheu-as com a água e adicionou uma folha pequena de erva-de-bugre a cada uma.
— Este lugar onde estamos agora já foi um posto de parada um dia. O último antes da fronteira — disse enquanto voltava a se sentar com uma careta de dor, seus músculos e ossos envelhecidos cobrando o preço por cada movimento mais brusco. — Em algum lugar ao norte daqui havia um caminho para o país de onde você veio e um posto, semelhante a esse, já do seu lado do mundo. Mas isso foi há muito tempo... Se é que foi mesmo.
— Do que você está falando?
— Qual é seu nome de família? — Oldor pareceu não ter ouvido a pergunta, compenetrado de súbito em algum pensamento.
— de Almeida Carvalho — Rafael respondeu, desconcertado.
— Carvalho... — o anão se interessou. Soltou uma longa baforada de fumaça e tirou o cachimbo da boca.
— É, um sobrenome comum.
— Diga-me — Oldor se encurvou na direção de Rafael, seu rosto se iluminando cadavericamente como o de um contador de histórias de terror ao redor de uma fogueira com a proximidade da luz da esfera —, como seu pai se chama? E seu avô? Bisavô?
— Meu pai se chama André, o pai dele, Hermes, o pai da minha mãe--
— Hermes! — o anão ergueu um pouco a voz, alarmando Rafael com a mudança repentina. Então se pôs a rir até que uma tosse seca o fez parar. Rafael se perguntava o que o nome de seu avô poderia significar para um alienado feito aquele.
— Agora começa a fazer sentido! — Oldor fitava Rafael com um misto de admiração e pena. O tempo não poupa ninguém, e coube ao neto de Hermes o fardo de devolver o orbe a Tenébria.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
09
Rafael remexia-se, sentado desconfortavelmente em um banco tripé e bambo. Encontrava-se em outro cômodo da capela, uma espécie de sacristia sem qualquer iluminação externa e úmida a ponto de fazê-lo pensar estar outra vez em um porão, esse possivelmente bem próximo de uma mina d’água. Mantinha a muito custo os últimos resquícios de calma em meio às circunstâncias.
A figura que avistara antes na penumbra do salão principal fazia-lhe companhia: um velho anão que socava ervas repicadas no fornilho de um cachimbo desproporcionalmente grande frente à sua estatura reduzida. Entre os dois, uma mesa tão pouco confiável quanto o banco onde Rafael se equilibrava tinha em seu centro a adaga misteriosa e o pacote que ele encontrara na porta da casa do avô. No chão, em frente a uma parede, gravetos em chamas esquentavam água para um chá.
O embrulho em forma de caixa estava aberto. Seu conteúdo iluminava os rostos dos dois à sua volta e projetava sombras distorcidas atrás da parca mobília da sacristia. Rafael reconhecia a forma esférica do objeto no interior do pacote, assim como a tonalidade vermelha-fogo da luz que ele emanava; aquele era o sol noturno do quadro no corredor que dava acesso à oficina do avô. Agora, o fato de ele ter estado o tempo todo lá, dentro da caixa, era só uma entre as questões esperando resposta.
— Quem é você? — Rafael perguntou ao anão, que acendia o cachimbo usando uma pedra de fósforo com a qual alguém sem a devida prática haveria certamente se queimado. Não haviam se apresentado adequadamente entre os bancos da capela. Rafael chegou a dizer seu nome, mas se ateve a fazer perguntas desconexas e até certo ponto desequilibradas a respeito de vida, morte, céu e inferno.
— Oldor. De Lúmen — o anão pendurou o cachimbo no canto da boca ao responder e já enchia de fumaça o ar sobre a esfera, alimentando a ilusão de que havia uma fogueira sobre a mesa.
— Onde eu estou, afinal? O que aconteceu comigo?
— Por que você veio parar aqui é algo além da minha compreensão — Oldor disse entre dentes com sua voz rouca. — Mas você é provavelmente a única criatura, humana ou não, em todo continente de Tenébria sem saber onde está.
A figura que avistara antes na penumbra do salão principal fazia-lhe companhia: um velho anão que socava ervas repicadas no fornilho de um cachimbo desproporcionalmente grande frente à sua estatura reduzida. Entre os dois, uma mesa tão pouco confiável quanto o banco onde Rafael se equilibrava tinha em seu centro a adaga misteriosa e o pacote que ele encontrara na porta da casa do avô. No chão, em frente a uma parede, gravetos em chamas esquentavam água para um chá.
O embrulho em forma de caixa estava aberto. Seu conteúdo iluminava os rostos dos dois à sua volta e projetava sombras distorcidas atrás da parca mobília da sacristia. Rafael reconhecia a forma esférica do objeto no interior do pacote, assim como a tonalidade vermelha-fogo da luz que ele emanava; aquele era o sol noturno do quadro no corredor que dava acesso à oficina do avô. Agora, o fato de ele ter estado o tempo todo lá, dentro da caixa, era só uma entre as questões esperando resposta.
— Quem é você? — Rafael perguntou ao anão, que acendia o cachimbo usando uma pedra de fósforo com a qual alguém sem a devida prática haveria certamente se queimado. Não haviam se apresentado adequadamente entre os bancos da capela. Rafael chegou a dizer seu nome, mas se ateve a fazer perguntas desconexas e até certo ponto desequilibradas a respeito de vida, morte, céu e inferno.
— Oldor. De Lúmen — o anão pendurou o cachimbo no canto da boca ao responder e já enchia de fumaça o ar sobre a esfera, alimentando a ilusão de que havia uma fogueira sobre a mesa.
— Onde eu estou, afinal? O que aconteceu comigo?
— Por que você veio parar aqui é algo além da minha compreensão — Oldor disse entre dentes com sua voz rouca. — Mas você é provavelmente a única criatura, humana ou não, em todo continente de Tenébria sem saber onde está.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
08
A consciência voltava aos poucos, incentivada pela dor no braço sobre o qual seu corpo pesava desajeitado. Rafael sentiu frio e abriu os olhos para descobrir que estava caído de bruços no chão poeirento de um salão pouco iluminado, cercado por móveis velhos e escuros, bem diferentes dos que havia na oficina do avô. O incômodo de um objeto esmagado entre seu corpo e o solo obrigou-o a se mexer um pouco. Sentiu os músculos doerem ao tentar se espreguiçar – não era impossível que tivesse ficado deitado ali, imóvel, por horas. Em seguida descobriu o que estivera involuntariamente escondendo.
Uma adaga.
Lembranças invadiram sua mente em uma onda. Embrulho, cheiro de verniz, boneco, olho hipnotizante, mulher. Morte. Achava-se bem vivo, no entanto. Levantou-se devagar, com cuidado para não forçar o braço dolorido, e se deu conta de que estava em uma espécie de capela antiga.
O lugar poderia muito bem estar abandonado. Havia pó por toda parte e Rafael percebeu que faltavam bancos nas duas únicas fileiras que a largura da construção permitia que houvesse ali. Em frente à parede oposta, não fosse por uma pequena cruz de madeira deitada descuidadamente sobre a rocha, o altar estaria totalmente vazio.
A pouca luz no ambiente advinha de janelas estreitas e altas, algumas com vidros quebrados. Ele se aproximou de uma delas para espiar o lado de fora e não reconheceu o cenário cinza e deserto, tomado por carcaças de árvores mortas, que se estendia por uma ladeira irregular. Que lugar é esse? O que está acontecendo, afinal? — Rafael tentava entender como chegara ali quando pensou ver um emaranhado de mariposas se afastar e desaparecer atrás de galhos secos e retorcidos, encobertos a todo momento por nuvens de areia e folhas. O vento invadia a capela através das falhas nos vidros, soprando ruidosamente, sussurrando palavras desconexas e ininteligíveis entre uma rajada e outra. A situação era perturbadora.
O rapaz examinou os bancos mais calmamente e acabou encontrando, apoiado no encosto de um deles, os restos de uma moldura quebrada que trouxeram o quadro do avô de volta a sua mente. Se todas aquelas coisas inexplicáveis estavam interligadas, ele não fazia a menor idéia de como isso poderia ser.
Escurecia rapidamente no interior da capela. Ali, parado entre os bancos, Rafael teve a sensação desagradável de estar sendo observado. Apertou os olhos e girou em torno de si mesmo, examinando tudo à sua volta, até perceber uma luz fraca vindo do canto do primeiro banco, onde as sombras já dominavam. Sobressaltou-se ao reconhecer alguém sentado naquele lugar afastado, encurvado na direção do altar, como que rezando. Aproximou-se, sem saber se o outro sabia da sua presença, e estacou ao som de uma voz rouca:
– Suponho que haja um bom motivo para você estar aqui.
Uma adaga.
Lembranças invadiram sua mente em uma onda. Embrulho, cheiro de verniz, boneco, olho hipnotizante, mulher. Morte. Achava-se bem vivo, no entanto. Levantou-se devagar, com cuidado para não forçar o braço dolorido, e se deu conta de que estava em uma espécie de capela antiga.
O lugar poderia muito bem estar abandonado. Havia pó por toda parte e Rafael percebeu que faltavam bancos nas duas únicas fileiras que a largura da construção permitia que houvesse ali. Em frente à parede oposta, não fosse por uma pequena cruz de madeira deitada descuidadamente sobre a rocha, o altar estaria totalmente vazio.
A pouca luz no ambiente advinha de janelas estreitas e altas, algumas com vidros quebrados. Ele se aproximou de uma delas para espiar o lado de fora e não reconheceu o cenário cinza e deserto, tomado por carcaças de árvores mortas, que se estendia por uma ladeira irregular. Que lugar é esse? O que está acontecendo, afinal? — Rafael tentava entender como chegara ali quando pensou ver um emaranhado de mariposas se afastar e desaparecer atrás de galhos secos e retorcidos, encobertos a todo momento por nuvens de areia e folhas. O vento invadia a capela através das falhas nos vidros, soprando ruidosamente, sussurrando palavras desconexas e ininteligíveis entre uma rajada e outra. A situação era perturbadora.
O rapaz examinou os bancos mais calmamente e acabou encontrando, apoiado no encosto de um deles, os restos de uma moldura quebrada que trouxeram o quadro do avô de volta a sua mente. Se todas aquelas coisas inexplicáveis estavam interligadas, ele não fazia a menor idéia de como isso poderia ser.
Escurecia rapidamente no interior da capela. Ali, parado entre os bancos, Rafael teve a sensação desagradável de estar sendo observado. Apertou os olhos e girou em torno de si mesmo, examinando tudo à sua volta, até perceber uma luz fraca vindo do canto do primeiro banco, onde as sombras já dominavam. Sobressaltou-se ao reconhecer alguém sentado naquele lugar afastado, encurvado na direção do altar, como que rezando. Aproximou-se, sem saber se o outro sabia da sua presença, e estacou ao som de uma voz rouca:
– Suponho que haja um bom motivo para você estar aqui.
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