terça-feira, 8 de setembro de 2009

04

Nuvens carregadas surgiram com rapidez e os primeiros pingos de chuva caíram enquanto Rafael estava ainda no caminho. Esforçou-se, mas correr não evitou que se molhasse antes de chegar à varanda da casa do avô.

Quando alcançou a proteção da cobertura de telhas acinzentadas de amianto, o rapaz arfava pesadamente com o cansaço e precisou apoiar a mão na coluna de carpintaria que sustentava o teto ondulado para tomar fôlego. Concluiu que aquele era o preço a pagar por passar as tardes na companhia dos amigos fumantes, ao invés dos que andavam de bicicleta. Apressou-se em tirar o casaco úmido, com receio de pegar um resfriado e pendurou-o desajeitadamente em um varal retrátil junto a uma parede lateral. Depois conferiu o estado dos pertences nos bolsos da calça. Por sorte a carteira e o celular continuavam secos.

Enquanto isso, além da proteção da varanda, a chuva engrossava cada vez mais.

Ao pôr as mãos na maçaneta da porta de entrada, Rafael topou com um pacote embrulhado em papel pardo na soleira, sobre um simpático tapete de boas-vindas. Tinha certeza de que o objeto não estava ali um minuto antes. Abaixou-se para pegá-lo e examinou-o por todos os lados, girando-o por diversas vezes, quase como faria com um cubo mágico. Não havia remetente e sequer um destinatário. Buscou na chuva a imagem de algum entregador correndo enquanto tentava inutilmente proteger-se da chuva com uma prancheta que pudesse dar-lhe alguma explicação, mas não encontrou ninguém.

Bastante intrigado, Rafael entrou em casa com o pacote nas mãos e chamou pelo avô. Ficou na expectativa de uma resposta com os ouvidos atentos durante um segundo, mas não ouviu qualquer som. Imaginou se ele ainda estaria fora. O velho havia saído logo pela manhã, sem dizer aonde ia, e ausentar-se por muito tempo não era um costume dele pelo que Rafael percebera naqueles poucos dias em que moraram juntos.

O cachorro o rodeava, choramingando, querendo sensibilizar o rapaz a respeito da sua tigela de comida vazia. Rafael ainda não aprendera exatamente onde as coisas eram guardadas e não fazia idéia de onde a ração do animal podia estar. Procurou superficialmente nos armários da cozinha, mas o melhor que conseguiu foi uma lata aparentemente esquecida de farinha láctea para forrar o próprio estômago. Isso caso encontrasse leite. As súplicas do cachorro tornavam-se irritantes a cada segundo e não davam sinais de que pudessem cessar. Sem muita alternativa, Rafael decidiu procurar pelo avô em sua oficina, no porão. Nunca fora até lá, mas havia a possibilidade do avô estar trabalhando trancado, como fazia com freqüência, onde não pudesse ouvi-lo chamar.

2 comentários:

Marina Daniel disse...

Telha de amianto...por que você não colocou telhas de garrafa PET recicladas? Amianto faz mal...
Farinha láctea... seu guloso! Coitado do cachorro!!!

Diógenes Daniel disse...

Me senti mal agora... que vovô menos ecológico esse!

(além de não alimentar o cachorro!)