terça-feira, 15 de setembro de 2009

05

Deixando o cachorro lamentar sozinho na cozinha, o rapaz desceu mal-humorado um lance de escadas, levando consigo o estranho pacote. Se encontrasse o avô, o único destinatário possível da encomenda, já que ele próprio não passava de um hóspede, ele poria fim ao mistério.

Grande mistério... Pensou que aquela era toda a diversão que conseguia ter em um dia de férias longe de casa e isso piorou seu humor um pouco mais.

Havia um corredor estreito e mal iluminado após o último degrau. A imagem de abandono daquele canto da casa fez o rapaz pensar que a comida ruim não era o único motivo para o avô precisar urgentemente contratar uma empregada. Depois de alguns passos, que ergueram pó do chão de tábuas velhas e de odor intenso, Rafael se deparou com um quadro na parede, sob a única lâmpada do lugar, que atraiu sua atenção e obrigou-o a parar para observar.

Com um contraste marcante, a pintura retratava uma esfera em chamas brilhando em meio a uma paisagem noturna, como uma paródia do sol, sobre um castelo com quatro torres. Rafael ergueu a mão para tocar no quadro, fascinado com a esfera que parecia prestes a se desprender e saltar da tela. Pensou sentir um calor emanando do objeto envolto em brasas e um medo absurdo de se queimar o fez recuar.

O som de um móvel sendo arrastado do outro lado da parede ajudou a trazer Rafael de volta à consciência. O quadro de repente se tornara a mais comum das pinturas, sua arte chamando tanta atenção quanto a moldura desgastada que a cercava. O móvel fora arrastado mais uma vez e Rafael sentiu aumentarem as chances de encontrar o avô. Deixou o quadro para trás e abriu a porta da oficina sem bater.

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