terça-feira, 22 de setembro de 2009

06

A oficina era surpreendentemente maior do que Rafael imaginara. Parado na porta ele via uma série de talhadeiras, furadeiras, lixas e pincéis espalhados desordenadamente pelo chão de dois corredores compridos, ladeados por estantes altas e imponentes que raspavam o teto e lembravam colunas improvisadas em um salão em obras. O rapaz se perguntou como aquele lugar podia ser tão grande – Deve ser o subsolo da casa toda – pensou. A altura das paredes parecia-lhe particularmente inexplicável, considerando os poucos degraus que havia descido desde o térreo até aquele nível.

A iluminação era parca e não provinha de nenhuma lâmpada no teto. Com um passo para dentro do primeiro corredor, Rafael enxergou um lampião aceso sobre uma escrivaninha coberta de papéis, sua luz projetando sombras demasiado grandes para o tamanho dos objetos nas prateleiras, em sua maioria meros brinquedos de madeira.

Vô? – Rafael chamou hesitante enquanto observava uma seqüência de bonecos com expressões débeis pintadas nos rostos de pau. Atravessou todo o corredor sem que nenhuma voz respondesse a seu chamado e percebeu que quanto mais se aprofundava entre as prateleiras, mais nauseante se tornava o cheiro de verniz exalado pelas peças armazenadas ali. O rapaz passou pela escrivaninha e observou desinteressado os rascunhos do avô antes de entrar no segundo corredor e se dar conta de que não havia ninguém ali.

Parado com o embrulho que encontrara na porta de entrada preso entre o antebraço e a cintura, a primeira explicação que lhe ocorreu para o som do móvel sendo arrastado que ouvira do lado de fora foi a existência de ratos na oficina. Nada mais óbvio tratando-se de um porão abarrotado de ferramentas e madeira. Entretanto, não havia qualquer sinal de móvel fora do lugar ou mesmo de algum que pudesse ter sido arrastado. A escrivaninha era a única capaz de fazer um barulho como aquele, já que as estantes pareciam presas e pesadas demais para serem movidas, mas, obviamente, mesmo ela precisaria de um homem para tirá-la do lugar. De qualquer forma, não havia marcas na mistura de pó e serragem no chão que denunciassem alguma movimentação, logo alguma ferramenta era o máximo que algum roedor afoito poderia ter mexido.

Rafael decidiu ir embora da oficina. Não tinha mais o que fazer ali e sua cabeça já começava a doer por causa do ar viciado. Fez o caminho de volta através do segundo corredor e teve a impressão de que os brinquedos naquelas prateleiras eram maiores que os anteriores. Na verdade estavam mesmo cada vez maiores. Alguns eram fascinantes, quase vivos. Especialmente um, que nem parecia ser feito de madeira.

4 comentários:

Éris disse...

Olha só, decidi dar uma voltinha pelo seu outro blog e encontro o link desse. E me deparo com algumas surpresas agradáveis, como o título, que lembra o de uma série de histórias que comecei a escrever há algum tempo e que nunca termino e sempre reformo, chamada Crônicas de Terrada, cujo primeiro capítulo postei no meu blog, e a referência a brinquedos... estranhos xD
A história está ótima, e já estou cheia de curiosidade em saber como será o andamento. Espero ansiosa pelo próximo post. Parabéns pelo trabalho!

Diógenes Daniel disse...

Transmimento de pensação de terceiro grau esse! Agora quero ler as Crônicas de Terrada pra ver se temos mais surpresas!
=]

Éris disse...

Então... O blog já está até feito, mas o segundo conto/história/crônica/seiláemquecategoriaseencaixa nunca me satisfaz e eu tô sempre fazendo, e refazendo, e nada. A história já tá na cabeça, mas o jeito como passar pro papel e depois pro blog, tá difícil. Vou torcer pra ver se saí alguma coisa antes do fim do mundo xD

Éris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.